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domingo, 9 de setembro de 2007

Carta de paixão metafísica

Brasília, 15 julho de 2008

Não sei porque fiquei com você, desde o início.Por uma besteira, coisa de brincadeira, nem era sério.Nem sei porque me fascinei tanto.

Devo confessar que você se mostrava uma pessoa diferente de tudo que conhecia e que batia comigo em alguns pontos. A cada dia você ficava mais interessante pra mim.

Eu neguei e lutei contra, confesso, a responsabilidade por isso é minha. Mas sinceramente, acreditava que não devia me apaixonar. Mas acho que não sou eu que mando nisso, afinal, besta que sou, nem reparei nos indícios... de que algo ia começar.

E a coisa ficou pior do que imaginava. De repente, você já estava meio que dentro de mim. De repente, seu espectro permeava o meu redor, e eu gostava disso. Gostava de sentir sua supraessência exalando por entre a minha, sentir-lhe perto, numa coisa muito mais metafísica que romântica, se é que me entende. Uma coisa muito mais de respirar suas moléculas e sentir que elas difundem dentro de mim...

Desculpe se falo de coisas sem sentido, mas estou apenas transcrevendo as imagens que aparecem na minha mente. As associações na minha cabeça vão num ritmo que nem eu mesmo consigo compreender, as idéias se formam antes que eu tenha domínio sobre elas. E no meio de toda essa bagunça você surge, ou melhor, emerge, etéreo, magnético, e eu quero te possuir todo, penetrar toda sua alma, ler os seus códigos. Quero estabelecer uma conexão alma-mente, o que você talvez não concorde, não compreenda, e esteja achando que estou aqui falando um monte de bobagens...

Não sei porque escrevo tudo isso, nem sei se vou enviar essa carta, na verdade alimento um desejo secreto de que um dia a ache sem querer no meio de um caderno e leia espontaneamente, e se surpreenda com tudo que disse. Porque não imaginava que me sentia assim. Ou porque sabia que eu me sentia assim, já que era exatamente o que sentia. Qualquer um dos dois iria me satisfazer.



Não faço idéia do que há por vir nessa jornada. Nem sei mesmo se esta acabou, já que a distância entre nós não permite que eu compreende o que você sente ou deixa de sentir. Mas pra mim é assim: Se eu me envolvo, tem que valer a pena. Tem que ser profundo, ficar marcado como cicatriz- No bom sentido, claro, nada de machucar. Falo de uma troca intensa de vivência, de vibrações, um compartilhamento de energias, coisas que além de uma história, trarão nova parte de mim.

Porque estou nessa vida para crescer, e para isso convivo com as pessoas, porque elas podem trazer importantes experiências, as quais mudam todo o nosso destino. Claro que algumas não tem todo esse poder, enquanto outras tem esse poder e muito mais. Acho que você já sabe em qual categoria te enquadro; Já sabe também o que espero que me traga.

Se eu realmente te mandar essa carta pelo correio, não repare o modo antigo. É que escrevi isso tudo direto no papel, acho que assim as palavras ganham mais força e me ajudam a aliviar essa tensão de guardar todo esse sentimento. Se eu digitá-las no computador, se tornarão apenas dados virtuais, irreais. Assim garanto que você vai ler o que escrevi, saber o que sinto e penso, pois mesmo que já não queira mais se relacionar comigo não terá coragem de jogar a carta fora sem abrí-la, e a curiosidade faria com que quisesse saber do que se trata. Posso mesmo mandar a carta sem remetente, assim você só saberia que é minha depois que começasse a ler, e acho até que é isso que farei.

Acho que já disse tudo, já me esvaziei dos sentimentos que pesavam em meu peito, trazendo falta de ar. Mais uma vez, obrigada, por ler isso tudo. E não precisa mandar resposta. Pode até mesmo fingir que nunca leu essas palavras. Só me mande um sinal, qualquer sinal, de que você ainda sabe que eu existo...

terça-feira, 10 de julho de 2007

Desejo

Ela acordou com uma música no vizinho. Seus vizinhos sempre tinham gosto bom pra música, por isso nem se incomodava. Achva gostoso acordar, ficar na cama ouvindo a música baixinha... Quase sempre era um piano tocando. Continuou deitada alguns minutos, quietinha, esperando pra ver se conseguia lembrar o que sonhou. Era um sonho gostoso...Ah, sim, aquele cara. Sonhara com ele.

Levantou de uma vez.Tinha dormido com a cortina aberta, para deixar a luz entrar de manhã e acordar mais delicadamente. Assim acordaria mais cedo. Ainda que não tivesse nada pra fazer, ainda que estivesse de férias e todos os seus amigos estivessem viajando, ainda que estivesse sozinha em casa e na cidade, queria acordar. Levantou da cama e trocou de roupa. Daria um passeio? Pela janela entrava o sol forte e quente. Sim, o dia era bem bonito para um passeio. Mas que sabe depois? Primeiro um café...sentar no sofá assistindo TV, ou apenas ouvindo a música do vizinho.... Hum, hum hum...cantarolava a melodia sem saber a letra. Tudo calmo em casa e resolveu ligar o computador. E ao digitar o endereço certo e começar a aparecer a página, um nervosismo que era quase um pressentimento- Vai chegar alguma notícia. Não sei se vou gostar.

E ao mesmo tempo, do nada veio o pensamento- acho que ele gosta de mim de verdade, acho que gosta mesmo.

E para que entendesse as duas mensagens conflitantes, foi para outro site, tomar coragem de abrir seu e-mail. Pensou, pensou, pensou- o que poderia ser? Uma decepção, com certeza. Se era uma mensagem que não iria gostar, e achava que ele gostava dela de verdade, então era uma mensagem que dizia que ele não gostava dela... Então ele não gosta! Decepção, mas também não era o fim do mundo. Amanhã a vida continua e outros homens estão lá fora livre e desempedidos. Era até melhor. Pra que insistir no que lhe faz mal? Conformou-se, já que era pra se decepcionar vamos fazê-lo de uma vez. E foi abrir a mensagem. E nem um nem outro, não era tão simples assim. Nem eu te amo muito menos eu te odeio. Nem sim nem não. E continuava tudo em suas mãos. Por um lado alívio, por outro dúvida. Ele falara a verdade- em partes. De novo isso tudo...

Algumas coisas na sua vida insistiam em ser uma constante repetitiva. Sempre se envolvendo, se apaixonando, sem ao menos saber quem é a pessoa. Mas acaba que é sempre assim: Encontro, conhecimento, desencontros, desencontros, desencontros, paixão, que não se controla; vontade...e o perigo. O perigo sempre presente, mas que ela ignora, e continua se envolvendo, vai andando de olhos fechados. Espera cair. Mas no final sempre recebe flores de reconciliação- Rosas vermelhas. O amor sempre cega e o que se vê é a cor berrante que te chama, é divertida. Acaba, sim. Más só depois das rosas, só com a distância. Tudo igual, com esse também vai ser... E aí cansou de ouvir a música do vizinho, cansou do computador, foi ligar o rádio- o velho rádio a pilha que tinha o tunnig manual ainda- e estava tocando Ana Carolina. 'Porque eu gosto é de rosas, e rosas, e rosas'. Sim, ela também gosta de rosas. Dizia que não, mas como ignorar? No final, ela gosta de rosas. 'Toda mulher gosta de rosas, rosas e rosas...' Que sempre são vermelhas, e acompanhadas de bilhetes a deixam satisfeita, ainda que nervosa.

Toda mulher gosta, nem que seja só de vez em quando,de um amor desentendido. Confesse, pare de se enganar. Era isso que ela queria, era por isso que acontecia sempre a mesma coisa. Ainda que achasse que era obra do acaso. Não. Ela que queria. Aquele namoro montanha-russa, cheio de altos e baixos, brigas e discussões- Algumas em público. No outro dia um "desculpe" e "eu te amo,não consigo viver sem você..." aquelas mentirinhas que a gente conta e o outro finge que acredita. Desencontros, desentendimentos, discussões, e outra coisa com D que não conseguia lembrar...

__Alô? Oi...Caramba, acredita que sonhei com você hoje?...

Ah sim, Desejo.

__Não, não vou fazer nada... Claro que eu quero te ver!

E no fim... ele sempre liga, ela sempre atende.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

A Lua-cheia

Era uma lua linda que nascia no céu, e tudo que podia pensar era em você. tantas vezes fomos naquele lugar, tantas vezes você ficou a admirar o céu ao meu lado, contar estrelas... eu ficava ali, rindo dessa sua meninice, do seu deslumbramento com as coisas tão simples, que a gente via todo dia na natureza.

Naquele dia que você me falou que conversava com as estrelas, eu tive vontade de rir. Te achava mesmo uma criança, uma menininha, e isso te deixava irritada. Apesar da nossa grande diferença de idade- eu já com mais de vinte e cinco e você apenas desessete- você gostava de estar sempre equiparada a mim. Se sentia madura, consciente. Mas eu não vi você assim, ainda mais por causa do seu jeito brincalhão de falar com as pessoas, nunca dizendo extamente o que queria dizer- eu achava que você simplesmente não sabia do que estava falando. Agora eu te entendo, minha querida, entendo perfeitamente o que se passava nessa sua cabecinha...

Mas na época eu não sabia, não te compreendia, culpa da minha ignorância, da minha má vontade e falta de paciência. Eu queria tudo explicado, do meu jeito, queria que você pensasse igual a mim, igual aos meus amigos do trabalho, aqueles que conviviam comigo. Mas era extamente aí que estava o seu poder de me encantar: você via o mundo de forma diferente. sentia-o, comunicava-se com ele. Eu não possuía essa ligação que você tinha com a natureza, não podia entender porque você gostava tanto de sentir o vento, e me mandava ficar calado quando estávamos sozinhos perto da cachoeira, e tudo que eu queria era te beijar e te abraçar, mas você queria ficar parada, de olhos fechados, escutando o barulho da água... O que será que você escutava quando ficava em silêncio?

Teve um dia que você me disse: "quando eu morrer, não chore por mim". Fiquei furioso! Briguei com você, falei para que nunca mais dissesse uma coisa dessas. Eu não queria pensar em tal coisa! a idéia de um dia não te ter mais perto de mim me doía demais... Além disso, achei que você duvidasse do meu amor, como não iria chorar por você? Você era tudo que eu mais queria na minha vida, no momento em que não a tivesse mais seria como se o mundo se abrisse sob meus pés... então você me respondeu "Se você chorar, eu vou ficar muito triste..." Claro que não entedi o que isso significava, achei que era só uma desculpa para amenizar o que tinha dito antes... como uma pessoa pode ficar triste depois de morrer? Ah, lindinha, me desculpe por não ter te compreendido! Me desculpe por ter apenas ouvido, e não escutado suas palavras...

No dia em que recebi a notícia de sua morte, meu coração quase parou de bater, e a primeira coisa que me veio à cabeça foram suas palavras. Tive raiva, meio que achei que você tinha feito isso de propósito pra me machucar, que já sabia o que ia acontecer... Que tolice! Você nunca faria uma coisa dessas, não sei porque fui tão estúpido nessa hora... Não pude ir no seu velório, estava em outra cidade, longe...e nem queria ver o seu corpo inerte, seria horrível e doloroso. Naquele dia fui para o mesmo lugar nas montanhas em que costumávamos ficar, sozinho, fui de tardezinha e fiquei até o anoitecer. Queria ficar sozinho com minha dor... Fiquei pensando em tudo que já tinhamos passado, tudo que você era pra mim, o seu jeito... Foi então que a lua surgiu no céu, brilhante, redonda e enorme. Parei um minuto de chorar e fiquei olhando para ela, extasiado. Nunca tinha visto uma lua assim. O céu se tingia de roxo no horizonte, e duas estrelas pipocavam - uma dela era vênus, como você me ensinou a primeira que aparece com o entardecer, e a sua estrela. Naquele momento eu te vi, Gabriela, vi sua face na lua, senti sua presença tão fortemente que era como se você me abraçasse e me beijasse suavemente nos lábios...

A emoção foi tanta, que comecei a falar. Falar, simplesmente, conversar com a lua, falar o que estava sentindo, o que me vinha à cabeça! Então eu fiquei em silêncio. Comecei a me lembrar de tudo que você já tinha me falado sobre o céu, a força dos astros, sobre a natureza...Fiquei em silêncio, apenas escutando o barulho da natureza. E de repente, eu entendia o que aquilo queria dizer. Parei de chorar no mesmo instante, minhas lágrimas secaram, pois eu não queria que você ficasse triste. Fiquei só com a montanha, esqueci do resto do mundo. Esqueci até mesmo que eu era uma pessoa na sociedade, esqueci que tinha um trabalho, uma família... Eu era apenas um ser da natureza, e senti vontade de ficar nu, como tinha vindo ao mundo. Me integrei totalmente com o ambiente. Escurecia, mas eu não tinha medo. Eu estava protegido, estava tranquilo- porque você estava comigo. Você era aquela lua, que irradiava tanto brilho, e me dizia para prestar mais atenção aos sinais da vida, um vento que sopra, o formato das nuvens do céu... Tudo isso tem um significado secreto, mas que é possível de se sentir. São esses pequenos elementos que regem a nossa vida, e que deixamos passar despercebidos....

Acabei caindo no sono, e tive sonhos magníficos. Sonhei que estávamos de novo na cachoeira, e que simplesmente escutávamos o barulho das águas caindo. Quando acordei, já era de madrugada, e tive que ir embora. Agora não choro mais por você. Sinto sua falta, mas toda noite, converso com as estrelas, e sei que você escuta o que eu falo...